Antes dos smartphones dominarem o mercado e dos pacotes ilimitados se tornarem comuns, havia uma época em que a telefonia móvel era sinônimo de status, planos confusos e muita criatividade publicitária. Nesse cenário, a Oi surgiu como uma marca que desafiava padrões - não apenas vendendo serviços, mas também contando histórias, criando hinos populares e, de certa forma, moldando uma geração que aprendeu a dizer "oi" com sotaque de propaganda.
Lançado em 2002, o famoso Chip Oi 31 anos virou lenda no mercado de telefonia. O plano prometia ligações gratuitas entre números da mesma operadora no mesmo DDD por mais de três décadas - uma ousadia que muitos, já na época, brincavam que "quebraria a Oi". A estratégia, inédita no Brasil, conquistou milhões de usuários e gerou uma legião de fiéis que ainda hoje mantêm o número ativo, seja por nostalgia ou por acreditar na promessa da empresa.
Mesmo após a venda da Oi Móvel para TIM, Vivo e Claro, os chips ainda circulam em grupos de colecionadores. Em sites de revenda, uma unidade ativa pode alcançar preços altos, transformando-se em uma verdadeira relíquia da era pré-smartphone.
Mas a ousadia da operadora não parava por aí. Em 2007, a Oi lançou uma das campanhas mais lembradas da publicidade brasileira. O comercial mostrava um coral de pessoas "algemadas" aos clientes, uma metáfora direta ao bloqueio de aparelhos - prática comum entre operadoras que impediam o uso de chips de concorrentes. A peça publicitária, embalada por uma música chiclete, convidava o público a participar de um abaixo-assinado no site "Bloqueio Não", pedindo à Anatel o fim da restrição.
Em apenas três meses, o movimento reuniu 1,5 milhão de assinaturas. Curiosamente, o site não exibia o logotipo da Oi, nem mencionava a empresa. A estratégia de marketing disfarçada acabou surtindo efeito, apesar de ter sido interrompida pela Claro, através de uma liminar. Ainda assim, o engajamento foi tamanho que, só em São Paulo, a Oi conquistou cerca de 1 milhão de novos clientes no primeiro ano da campanha.
O sucesso do "Bloqueio Não" também se deveu ao toque de humor e interatividade. Para aumentar o engajamento, a empresa lançou o concurso "Algema Dourada", que premiava o participante mais criativo ao dançar o jingle da campanha. O site oferecia tutoriais animados, versões em karaokê e até partituras da música - tudo em português, espanhol, inglês e italiano, numa clara provocação às concorrentes Claro e TIM.
No fim das contas, a Oi colecionou cerca de 2 milhões de assinaturas, e em 2010, a Anatel finalmente acatou o pedido popular com a Súmula nº 8/2010, que garantiu ao consumidor o direito de ter seu aparelho desbloqueado sem custo adicional.
Outro marco das campanhas da empresa foi o uso recorrente de crianças nos comerciais. Entre 2004 e 2010, os pequenos se tornaram símbolo da marca, encerrando os vídeos com o clássico "oi". Já nos anos seguintes, rostos conhecidos da TV e da internet, como José Loreto, Malvino Salvador, Marcelo Tas e Whindersson Nunes, passaram a protagonizar as campanhas.
A presença de crianas nos comerciais da Oi foi tão macante que, em 2022, a operadora iniciou uma campanha nostálgica que rapidamente ganhou as redes sociais: a busca pelas crianças que encerraram seus comerciais com o famoso "oi". A ação, promovida nas plataformas digitais da marca, convidava o público a ajudar a localizar os ex-protagonistas das propagandas - agora já adultos - que marcaram a história da comunicação brasileira.
De acordo com Cyd Alvarez, fundador e ex-presidente da agência NBS, responsável pela publicidade da operadora desde sua criação, e Andrea Metzker, produtora dos filmes até 2021, o número estimado de crianças que participaram das campanhas chega a 350. Andrea relembra que, nos primeiros anos, a NBS lançava de 30 a 40 comerciais por ano, o que explica a grande rotatividade de rostinhos infantis.
A campanha, conduzida nas redes sociais, contou com o apoio de embaixadores da marca como Whindersson Nunes, Nobru e Maísa, que também iniciou a carreira ainda criança em programas de televisão. A proposta era conectar o público à trajetória da Oi, que naquele momento passava por uma fase de reposicionamento.
Mesmo com o tempo e as crises que culminaram na recente falência, a Oi deixou um legado de comunicação criativa e descomplicada - um lembrete de quando as operadoras ainda falavam com o coração, e o público respondia com um simples, mas memorável: "oi".
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