Em meio à rotina silenciosa de uma pequena cidade no nordeste da França, um detalhe aparentemente banal chamou a atenção de uma moradora e acabou revelando um caso chocante de isolamento e privação. O que parecia ser apenas um veículo estacionado em um pátio privado escondia uma realidade perturbadora, que mobilizou autoridades e expôs uma história de sofrimento prolongado.
Um menino de nove anos foi resgatado após passar quase dois anos sendo mantido dentro de uma van, em condições degradantes. Segundo investigadores, a criança não tomava banho desde 2024. O pai, um homem de 43 anos apontado como responsável, foi indiciado na última sexta-feira (10).
O resgate ocorreu na pequena localidade de Hagenbach, com cerca de 800 habitantes. Militares foram acionados após uma vizinha relatar ter ouvido “barulhos de criança” vindos do veículo. Ao destravarem a van, encontraram o menino nu, desnutrido e deitado em posição fetal, coberto apenas por uma manta, cercado por lixo e excrementos, conforme relatou o promotor de Mulhouse, Nicolas Heitz.
De acordo com as autoridades, o estado físico da criança era alarmante. Pálido e enfraquecido, ele já não conseguia andar devido ao longo período em posição sentada. O menino foi levado imediatamente para um hospital em Mulhouse, onde recebe cuidados médicos.
Durante os depoimentos, a criança afirmou que a companheira do pai não o queria no apartamento e defendia sua internação em um hospital psiquiátrico. O pai, segundo o próprio relato, decidiu mantê-lo trancado na van para evitar essa possibilidade.
As condições em que o menino vivia evidenciam um cenário extremo de negligência. Ele utilizava garrafas plásticas para urinar e sacos de lixo para suas necessidades fisiológicas, além de ter apenas uma trouxa de roupas à disposição.
O pai vivia com a companheira, de 37 anos, e duas meninas (uma filha dele e outra dela) e admitiu ter mantido o filho privado de cuidados desde novembro de 2024. Em sua defesa, alegou que tentava protegê-lo da mulher.
O garoto frequentou a escola até o ano letivo de 2023-2024, em Mulhouse. Posteriormente, a instituição arquivou seu registro após a família informar que ele seguiria outro modelo de ensino.
O acusado também declarou que permitiu que o menino saísse do veículo em maio de 2025 e que teve acesso ao apartamento durante um período de férias da família.
A companheira do homem também é investigada e pode responder por omissão, caso seja comprovado que tinha conhecimento da situação. Ela nega as acusações e afirma não saber que o menino estava sendo mantido na van.
Segundo o Ministério Público, não há indícios médicos que confirmem problemas psiquiátricos na criança. As autoridades assumiram provisoriamente a custódia dos três menores envolvidos, enquanto o caso segue sob investigação.
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